Compartilhando mais algumas partes da minha leitura do livro Van Gogh, O suicida da sociedade, de Antonin Artaud.
"Van Gogh não morreu de um estado de delírio próprio,
e sim por ter servido corporalmente de campo a um problema em torno do qual, desde suas origens, se debate o espírito iníquio desta humanidade,
que é o da predominância da carne sobre o espírito, ou do corpo sobre a carne, ou do espírito sobre um e outro.
E onde fica neste delírio o lugar do eu humano?
Van Gogh buscou o seu durante toda a vida com uma energia e uma determinação estranhas.
E ele não se suicidou num gesto de loucura, no transe de não consegui-lo, mas, pelo contrário, acabara de consegui-lo e de descobrir o que ele era e quem ele era, quando a consciência geral da sociedade, para puni-lo por se ter desvencilhado dela,
o suicidou.
E isto se passou com Van Gogh como de hábito se passa sempre durante uma suruba, uma missa, uma absolvição, ou tal ou qual rito de consagração, de possessão, de sucubação ou de incubação.
Ela se introduziu então em seu corpo,
esta sociedade
absolvida,
consagrada,
santificada
e possessa,
apagou nele a consciência sobrenatural que acabara de conquistar, e como uma inundação de corvos negros nas fibras de sua árvore interna,
o submergiu num último mergulho,
e, tomando-lhe o lugar,
o matou.
Porque é da lógica anatômica do homem moderno nunca ter podido viver, nem pensado viver, senão possesso."
"Nunca ninguém escreveu ou pintou, esculpiu, construiu, inventou, a não ser para sair do inferno."
"Descrever um quadro de Van Gogh, para quê! Nenhuma descrição proposta por outra pessoa poderá valer o simples alinhamento de objetos naturais e de cores a que se entrega o próprio Van Gogh,
tão grande escritor quanto pintor e que confere à obra descrita a impressão da mais atordoante autenticidade."
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quinta-feira, 1 de setembro de 2011
quarta-feira, 31 de agosto de 2011
Convocando Artaud à Velvet Room : Van Gogh, O suicida da sociedade.
Mais uma recomendação de leitura, Van Gogh O suicida da sociedade de Antonin Artaud. Estou apaixonado por este livro, excelente.
Sinopse:
"Em Van Gogh, O suicida da sociedade, publicado em 1947, alguns meses antes de sua morte, Antonin Artaud presta ao pintor uma deslumbrante homenagem. Não, Van Gogh não era louco, ele insiste, ou então ele o era no sentido desta autêntica alienação que a sociedade e os psiquiatras querem ignorar."Mas que garantia têm os alienados evidentes deste mundo de serem tratados por seres seres autênticos?" (Aliéanation et magic noire)
Eu ainda não terminei então nem me sinto no direito de fazer alguma resenha ou algo assim, mas tem algumas partes do texto que eu gostaria de compartilhar:
"É possível falar da boa saúde mental de Van Gogh que, no curso de toda sua vida, apenas assou uma das mãos e, fora isso, não fez mais que amputar a orelha esquerda,
num mundo onde se come todos os dias vagina cozida à la sauce vert ou sexo de recém-nascido espancado colérico, tal como é colhido ao sair do sexo materno.
E isto não é uma imagem, mas um fato abundante e cotidianamente repetido e observado em toda a terra.
E é assim que, por mais delirante que possa parecer tal afirmação, a vida presente se mantém em sua velha atmosfera de estupro, de anarquia, de desordem, de delírio, de desregramento, de loucura crônica, de inércia burguesa, de anomalia psíquica (porque não foi o homem mas o mundo que se tornou anormal), de assumida desonestidade e de insigne hipocrisia, de sórdido desprezo por tudo que mostre raça,
de reivindicação de uma ordem inteiramente baseada na efetivação de uma primitiva injustiça,
de crime organizado enfim.
Isto é nocivo porque a consciência doente tem a esta altura interesse capital em não se livrar da doença.
Foi assim que uma sociedade deteriorada inventou a psiquiatria para se defender das indagações de certas mentes superiores, cuja capacidade de adivinhar a incomodava."
"Porque o que a pintura de Van Gogh ataca não é um determinado conformismo de costumes, mas o conformismo das próprias instituições. E nem mesmo a natureza exterior, com seus climas, marés e tempestades equinociais, pode manter, depois da passagem de Van Gogh, a mesma gravitação de antes."
"E o que é um autêntico alienado?
É um homem que preferiu tornar-se louco, no sentido em que isto é socialmente entendido, a conspurcar uma certa idéia superior da honra humana.
Foi assim que a sociedade estrangulou em seus asilos todos aqueles dos quais quis se livrar ou se proteger, por terem se recusado a se tornar cúmplices dela em algumas grandes safadezas.
Porque um alienado é também um homem que a sociedade se negou a ouvir e quis impedi-lo de dizer insuportáveis verdades."
"Quanto à mão assada, trata-se de heroísmo puro e simples, quanto à orelha cortada, é lógica direta, e, repito, quanto a um mundo que, dia e noite, e cada vez mais, como o incomível,
para levar até o fim sua má intenção,
nada se tem a fazer, chegando a este ponto,
senão tapar-lhe a boca."
Sinopse:
"Em Van Gogh, O suicida da sociedade, publicado em 1947, alguns meses antes de sua morte, Antonin Artaud presta ao pintor uma deslumbrante homenagem. Não, Van Gogh não era louco, ele insiste, ou então ele o era no sentido desta autêntica alienação que a sociedade e os psiquiatras querem ignorar."Mas que garantia têm os alienados evidentes deste mundo de serem tratados por seres seres autênticos?" (Aliéanation et magic noire)
Eu ainda não terminei então nem me sinto no direito de fazer alguma resenha ou algo assim, mas tem algumas partes do texto que eu gostaria de compartilhar:
"É possível falar da boa saúde mental de Van Gogh que, no curso de toda sua vida, apenas assou uma das mãos e, fora isso, não fez mais que amputar a orelha esquerda,
num mundo onde se come todos os dias vagina cozida à la sauce vert ou sexo de recém-nascido espancado colérico, tal como é colhido ao sair do sexo materno.
E isto não é uma imagem, mas um fato abundante e cotidianamente repetido e observado em toda a terra.
E é assim que, por mais delirante que possa parecer tal afirmação, a vida presente se mantém em sua velha atmosfera de estupro, de anarquia, de desordem, de delírio, de desregramento, de loucura crônica, de inércia burguesa, de anomalia psíquica (porque não foi o homem mas o mundo que se tornou anormal), de assumida desonestidade e de insigne hipocrisia, de sórdido desprezo por tudo que mostre raça,
de reivindicação de uma ordem inteiramente baseada na efetivação de uma primitiva injustiça,
de crime organizado enfim.
Isto é nocivo porque a consciência doente tem a esta altura interesse capital em não se livrar da doença.
Foi assim que uma sociedade deteriorada inventou a psiquiatria para se defender das indagações de certas mentes superiores, cuja capacidade de adivinhar a incomodava."
"Porque o que a pintura de Van Gogh ataca não é um determinado conformismo de costumes, mas o conformismo das próprias instituições. E nem mesmo a natureza exterior, com seus climas, marés e tempestades equinociais, pode manter, depois da passagem de Van Gogh, a mesma gravitação de antes."
"E o que é um autêntico alienado?
É um homem que preferiu tornar-se louco, no sentido em que isto é socialmente entendido, a conspurcar uma certa idéia superior da honra humana.
Foi assim que a sociedade estrangulou em seus asilos todos aqueles dos quais quis se livrar ou se proteger, por terem se recusado a se tornar cúmplices dela em algumas grandes safadezas.
Porque um alienado é também um homem que a sociedade se negou a ouvir e quis impedi-lo de dizer insuportáveis verdades."
"Quanto à mão assada, trata-se de heroísmo puro e simples, quanto à orelha cortada, é lógica direta, e, repito, quanto a um mundo que, dia e noite, e cada vez mais, como o incomível,
para levar até o fim sua má intenção,
nada se tem a fazer, chegando a este ponto,
senão tapar-lhe a boca."
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