segunda-feira, 25 de junho de 2012

Dislexia parte 4: Gaguejar.





Ghérasim Luca - "Passionnément"

pas pas paspaspas pas
pasppas ppas pas paspas
le pas pas le faux pas le pas
paspaspas le pas le mau
le mauve le mauvais pas
paspas pas le pas le papa
le mauvais papa le mauve le pas
paspas passe paspaspasse
passe passe il passe il pas pas
il passe le pas du pas du pape
du pape sur le pape du pas du passe
passepasse passi le sur le
le pas le passi passi passi pissez sur
le pape sur papa sur le sur la sur
la pipe du papa du pape pissez en masse
passe passe passi passepassi la passe
la basse passi passepassi la
passio passiobasson le bas
le pas passion le basson et
et pas le basso do pas
paspas do passe passiopassion do
ne do ne domi ne passi ne dominez pas
ne dominez pas vos passions passives ne
ne domino vos passio vos vos
ssis vos passio ne dodo vos
vos dominos d’or
c’est domdommage do dodor
do pas pas ne domi
pas paspasse passio
vos pas ne do ne do ne dominez pas
vos passes passions vos pas vos
vos pas dévo dévorants ne do
ne dominez pas vos rats
pas vos rats
ne do dévorants ne do ne dominez pas
vos rats vos rations vos rats rations ne ne
ne dominez pas vos passions rations vos
ne dominez pas vos ne vos ne do do
minez minez vos nations ni mais do
minez ne do ne mi pas pas vos rats
vos passionnantes rations de rats de pas
pas passe passio minez pas
minez pas vos passions vos
vos rationnants ragoûts de rats dévo
dévorez-les dévo dédo do domi
dominez pas cet a cet avant-goût
de ragoût de pas de passe de
passi de pasigraphie gra phiphie
graphie phie de phie
phiphie phéna phénakiki
phénakisti coco
phénakisticope phiphie
phopho phiphie photo do do
dominez do photo mimez phiphie
photomicrographiez vos goûts
ces poux chorégraphiques phiphie
de vos dégoûts de vos dégâts pas
pas ça passio passion de ga
coco kistico ga les dégâts pas
le pas pas passiopas passion
passion passioné né né
il est né de la né
de la néga ga de la néga
de la négation passion gra cra
crachez cra crachez sur vos nations cra
de la neige il est il est né
passioné né il est né
à la nage à la rage il
est né à la né à la nécronage cra rage il
il est né de la né de la néga
néga ga cra crachez de la né
de la ga pas néga négation passion
passionné nez pasionném je
je t’ai je t’aime je
je je jet je t’ai jetez
je t’aime passionném t’aime
je t’aime je je jeu passion j’aime
passionné éé ém émer
émerger aimer je je j’aime
émer émerger é é pas
passi passi éééé ém
éme émersion passion
passionné é je
je t’ai je t’aime je t’aime
passe passio ô passio
passio ô ma gr
ma gra cra crachez sur les rations
ma grande ma gra ma té
ma té ma gra
ma grande ma té
ma terrible passion passionnée
je t’ai je terri terrible passio je
je je t’aime
je t’aime je t’ai je
t’aime aime aime je t’aime
passionné é aime je
t’aime passioném
je t’aime
passionnément aimante je
t’aime je t’aime passionnément
je t’ai je t’aime passionné né
je t’aime passionné
je t’aime passionnément je t’aime
je t’aime passio passionnément

Dislexia parte 3: Idioleto.

"Her stare is louder than her voice..."

Mas não são as palavras também, apesar de sua inerente limitação e afastamento da realidade, responsáveis pela pluralidade e pela beleza da literatura? Como posso, tal qual palavra, me organizar de forma a permitir mais possibilidades? Menos gramáticas e mais figuras de linguagem? Menos conceitos e mais metáforas?

Organizar nada tem a ver com ordenar, para falarmos, ordenamos as palavras em linha reta, falamos as palavras sucessivamente na tentativa de produzir um sentido, mas há sentidos outros que podem ser habitados fora dessa lógica. Uma frase, nós sabemos onde começa, mas e uma pintura? O pensamento não precisa de ordem, podemos organizá-lo, mas ele não precisa estar em linha reta. Ele pode, e muitas vezes é, intempestivo e dionisíaco. A noção de “Eu” por exemplo, é uma forma de organizar nossas experiências, mas se nos identificamos demais com estes limites, eles passam a ser uma ordem - limitando a vida e as possibilidades de viver. Nós precisamos reconhecer estes limites “são eles que permitem organizar o caos que nós somos” são os limites que permitem a vida, mas quando os limites são como pontes, passagens, fluxos e não um fim. Limites como membranas permeáveis e não como prisões. E assim como usamos dos limites para formar uma noção de “Eu”, para organizar nosso pensamento, eu descobri que também podemos usar a linguagem como um limite capaz de potencializar a vida. Quando somos capazes de gaguejar em nossa própria língua, quando tentamos através da linguagem expressar a multiplicidade estética que é a vida ao invés de tentar explicar uma verdade. Quando somos capazes de produzir novos vínculos com a linguagem capazes de fazer a palavra manifestar seu devir .Quando percebemos que as palavras nem sempre são apenas para serem lidas ou ouvidas e passamos a enxergar as danças da linguagem e sentir seu delírio. E se eu puder delirar na língua, então, não ficarei mudo....

“Agora, a essência da natureza deve expressar-se por via simbólica; um novo mundo de símbolos se faz necessário, todo o simbolismo corporal, não apenas o simbolismo dos lábios, dos semblantes, das palavras, mas o conjunto inteiro, todos os gestos bailantes dos membros em movimentos rítmicos. Então, crescem as outras forças simbólicas, as da música, em súbita impetuosidade, na rítmica, na dinâmica, na harmonia.” (Nietzsche, O nascimento da tragédia.)

Continuo falando, mas agora sem acreditar na identidade subjacente ao que é dito, agora estou sabendo do caos SENTIDO que permanece em cada palavra...


"E você?

A palavra é uma roupa que a gente veste.
Uns gostam de palavras curtas.
Outros usam roupa em excesso.
Existem os que jogam palavra fora.
Pior são os que a usam em desalinho.
Alguns usam palavras caras.
Poucos ostentam palavras raras.
Tem quem nunca troca.
Tem quem usa a dos outros.
A maioria não sabe o que veste.
Alguns sabem e fingem que não.
E tem quem nunca usa a roupa certa pra ocasião.
Tem os que se ajeitam bem com poucas peças.
Outros se enrolam em um vocabulário de muitas.
Tem gente que estraga tudo o que usa.
E você, com quais palavras você se despe?"


                                                        Viviane Mosé


“Acredito que errado é aquele que fala correto e não vive o que diz.”
                                                                                                  Fernando Anitelli




Dislexia parte 2: Afasia.

Qual a distância entre uma palavra e aquilo que ela tenta dizer? Qual a distância entre o que se diz e o que se ouve? O mal entendido é constante, desencontros, brigas, disses e não disses. Diante das palavras fica realmente difícil saber se fomos compreendidos, e a probabilidade mostra que é mais frequente que não sejamos. Queremos nos expressar, comunicar o que sentimos, mas falando, pouco ou nada é compreendido. Então, por que falar?

Usamos a palavra para nos remeter a realidade, a palavra jamais é a coisa a que se refere, na maioria das vezes nem se parece! Sabemos disso e mesmo assim tomamos a palavra como a própria realidade. Até mesmo por que, confiamos muito mais no que escutamos do que no que vemos e menos ainda no que sentimos.

“Ver é mais importante do que falar, e ficar falando é uma excelente maneira de mal perceber o que estou vendo. Isto é: se estivermos atentos às palavras, mal veremos, por exemplo, os gestos e as expressões faciais do interlocutor.” (Gaiarsa, Meio século de psicoterapia verbal e corporal)

Usamos a palavra para criar leis fundamentais, morais intransigentes. Usamos a palavra para produzir diagnósticos, taxamos identidades imutáveis, classes, categorias, conceitos, conceitos e mais conceitos. E esquecemos que são “só” palavras... nós começamos a servir aquilo que deveria ter sido pra nós um instrumento.

“O homem criador dos signos não era modesto a ponto de aceitar que apenas nomeava, ele precisou acreditar que com as palavras adquiriria saber sobre as coisas”
(Viviane mosé)

A palavra nivela, iguala, exclui as diferenças, as possibilidades e a pluralidade inerente ao viver. Chama de igual àquilo que é múltiplo e a isso atribui um valor de verdade. Mesmo que este valor surja da necessidade de acordos, de comunicação, esquecemos que estes valores são móveis e mutáveis. O genérico facilita a comunicação, “os significados das palavras são estatísticos”, mal usado, no entanto, constitui a base dos preconceitos, “pais são assim” , mulheres são assado” quando eu falo “mulher”, você entende o que eu quero dizer, mesmo sabendo que não existe “a mulher” e que todas as mulheres são incomparavelmente únicas.

“A linguagem é produto da necessidade psicológica de exclusão das diferenças, da vontade de nivelamento e redução, do medo da pluralidade e do conflito. Ao invés de uma convenção necessária, capaz de aumentar o poder de atuação do homem no mundo, a palavra se tornou o sinônimo das coisas. mais do que isso, a crença na correspondência entre as palavras e as coisas terminou por sustentar a vontade de negação da vida, que, ao contrário da convenção dos signos, é mudança, conflito, imprevisibilidade, desconhecimento. Ao impor a todo enunciado a sua lógica de identidade, a linguagem produziu a ficção de duração, de estabilidade, de verdade do mundo.” (Viviane Mosé, Nietzsche e a grande politica da linguagem.)

Sem dúvida, as palavras são limites, e para permanecer preso a elas é necessário um esforço de esquecimento, confiar nas palavras é desconsiderar o múltiplo, o caótico e o impermanente do viver. “Nomear é impor identidade ao múltiplo, ao móvel, é forjar uma unidade que a pluralidade das coisas não apresenta. A palavra, por juntar coisas distintas em um único signo, se sustenta na negação da diferença.” (Idem.)

 Nosso próprio raciocínio está aprisionado no marchar lento de uma frase, quando pensamos em palavras, tendemos a seguir a ordem necessária para falar, uma palavra atrás da outra, lento demais, limitado demais. “A linguagem formata o nosso pensamento” mas será que precisa? Eu penso de outra forma e talvez seja daí que venha minha dislexia... Podemos pensar em pulos, fora de linhas, na velocidade de quem olha, o campo visual não segue uma linha, uma pintura não tem começo nem fim...


Eu sei que nada tenho a dizer,
Mas acabei dizendo sem querer
Palavra bandida!
Sempre arruma um jeito de escapar (hum!)

Seria tudo muito melhor
Se a música falasse por si só
Dá raiva da vida
Nada existe sem classificar (não!)

Penso, tento
Achar palavras pro meu sentimento
Tanto é pouco, nada diz
Não é triste, nem feliz

Mesmo sendo
Um pranto, um choro ou qualquer lamento
Nada importa, tanto faz
Se é pra sempre ou nunca mais

Pensei em mil palavras, e enfim
Nenhuma das palavras coube em mim
Não vejo saída
Como vou dizer sem me calar?

Diria mudo tudo o que faz
Minha vida andar de frente para trás
Uma frase perdida
Num discurso feito de olhar

Penso, tento
Achar palavras pro meu sentimento
Tanto é pouco, nada diz
Não é triste, nem feliz

Mesmo sendo
Um pranto, um choro ou qualquer lamento
Nada importa, tanto faz
Se é pra sempre ou nunca mais

Não é medo, nem é riso
Não é raso, não é pouco, nem é oco
Não é fato, nem é mito
Não é raro, não é tolo, não é louco
Não é isso, não é rouco
Não é fraco, não é dito, não é morto
Não, não, não, não!

Eu sei que nada tenho a dizer
Pensei em mil palavras, e enfim
Seria tudo muito melhor
Pensei
Seria
Se um dia alguém puder me entender

                                                             Móveis Colonias de Acaju.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Ética da crueldade ou Ética da vontade de potência.

Antes de qualquer coisa, este texto não vem fornecer uma nova concepção de ética nem um novo código de conduta. Minha intenção nestes rabiscos é o de pensar certos parâmetros e conceitos que atravessam as noções vigentes de ética e moral.

Esclarecendo o título, trago o termo crueldade a partir do significado adotado por Antonin Artaud em seu manifesto “O teatro da crueldade” cuja conotação apreende-se por uma aproximação com a natureza, sua vontade implacável e ausência de piedade. O cruel como intensidade que não pode ser detida, o agressivo animalesco em direção à vida ao invés da violência que tem origem na repressão, a fúria criativa no lugar da raiva ressentida! Artaud chama de crueldade o apetite de viver, o esforço para entrar em movimento, para sair da apatia. E é a partir desses conceitos que Artaud pensa um novo teatro, que abandonaria os psicologisismos para dar lugar às cenas intensas que extravasariam o palco para atingir a plateia. Um teatro mais pautado no movimento do que no discurso, mais preocupado em expressar do que em representar.

Não parece forçoso então, a aproximação do termo crueldade - da forma como empregada por Artaud - com o conceito de vontade de potência do Nietzsche. O teatro da crueldade é necessariamente intempestivo e dionisíaco! Assim como a vontade de potência, que não é a vontade de ter potência, mas sim, a potência na vontade, no novo, no múltiplo, no diferente. É a ação no lugar da reação.  É tomar a si mesmo pela mão e fazer da vida uma obra de arte!

               Dessa forma, busco articular estas concepções com a maneira pela qual aprendi a pensar a ética por Espinoza, um posicionamento vigilante na vida em que se buscaria a produção, preferencialmente, de bons encontros, encontros estes, capazes de produzir transformações em favor da vida, da potência e dos afetos alegres.  Não nos deixando capturar pela armadilha que todas dualidades podem conter, bom encontro e mal encontro, opostos que deixam escapar linhas que apenas análises contextuais frequentes e prudentes podem dar conta. Se perguntar constantemente “O que estamos produzindo?” “Quais são seus os efeitos?” “O que se busca com isso?”. Pode parecer um certo pragmatismo da afetividade, mas são boas estratégias para não se perder à mercê das contradições fornecidas ao se pensar opostos.

Foi a partir dessas perguntas que cheguei à conclusão de que muitas vezes partimos dessas armadilhas ao obscenizar forças que possam ser produtivas e glorificar outras que possam ser adoecedoras. E pensar a ética da crueldade ou da vontade de potência é tentar romper com noções de obsceno e glorioso pré-estabelecidos, rompendo com julgamentos a priori e preconceitos que mediam a experiência e impedem a produção de potência e de alegria.

O “respeito” por exemplo, na maioria das vezes é sempre identificado como algo bom, algo que deva se buscar. Mas o que pode produzir este respeito? Eu tenho uma opinião, você tem outra, vamos nos respeitar e cada um vai pro seu lado, sem trocas, sem transformações, o que isso produz? Qual o perigo de expormos nossas opiniões? Há vários riscos, poderíamos mudar de opinião, poderíamos ampliar nossas perspectivas acerca de um tema. A ética da vontade de potência busca bancar estes distúrbios, não ter medo de mudar, buscar o imprevisto, o caótico e fazer disso potência. Não abrir mão do conflito.

Qual o problema com o conflito? A maioria das pessoas morrem de medo, mas muitas vezes é no choque de opiniões, de ideias, de concepções é que se produz a diferença! Não é a toa que ética tem muito a ver com atenção, atenção ao contexto. Conflitos são ruins? Quando eles são ruins e quando eles podem ser bons? Um embate de forças que potencializa as forças envolvidas tem tudo pra ser um bom encontro.

Aqueles que não dão conta de bancar a intensidade dos conflitos se respaldam em compreensões miseráveis sobre respeito e amor. “Não vou expor minha opinião por que te respeito!” E o que chamamos de amor? É necessariamente algo bom? Esta palavra que serve como desculpa para todo tipo de opressão, sejam pais que se sentem no direito de fazer tudo com os filhos porque os “amam” ou pessoas que acreditam que podem controlar a vida de seus parceiros em nome do “amor”. Compreensões mais intensas do amor são capazes de nos mostrar um amor furioso, e limpo. Um amor intempestivo que busca potencializar a vida e não apenas retroalimentar misérias afetivas. Mas como permitir a intensidade dos afetos? Para isso, acredito que seja necessário, além de suportar os conflitos, ser capaz de bancar o sofrimento. Com certeza uma das concepções mais obscenizadas, o sofrimento é visto prioritariamente como algo ruim, e na tentativa de se proteger desse sofrimento as pessoas se defendem também contra as intensidades, os afetos alegres e a capacidade de amar. Sofrer é ruim, sim, mas faz parte da vida, é inevitável. Pensar a vontade de potência neste caso implica no que pode ser feito com este sofrimento, com estas angústias, em usá-las a favor de seu desenvolvimento. Pois, ao se proteger contra o sofrimento nos protegemos também de todas as demais intensidades inclusive as que podem ser potentes e alegres.

“Alguma vez já dissestes sim a uma alegria? Ó meus amigos, então dissestes ao mesmo tempo sim a todas as dores. Todas as coisas estão encadeadas, misturadas, amorosamente enlaçadas. Alguma vez desejastes que alguma coisa se repetisse? Alguma vez dissestes: ‘agrada-me felicidade, piscar de olhos, instante!’? Então desejastes o retorno de todas as coisas, voltando todas de novo, todas eternas, encadeadas, misturadas, amorosamente enlaçadas. Oh, foi assim que amastes o mundo! Vós próprios eternos, vós o amais eternamente e sempre; e à dor dizeis: ‘Passa, mas regressa!’ Porque a alegria quer a eternidade!” (assim falou Zaratustra )







Addendum-

Em tempo: Vejamos a “Esperança”, por mais que eu tente pensar contextualmente, ainda não consegui encontrar um contexto no qual essa tão querida esperança tenha sido interessante, simplesmente esperar não muda nada, não produz nada! Se você tem esperança de que algo bom lhe acontecerá, se este algo acontecer, bacana, se não acontecer, você apenas colherá as frustrações que você plantou ao ficar esperando . Até por que não importa se o que acontecerá será bom ou ruim, mas sim, o que você fará com isso no momento em que acontecer! Portanto, vale muito mais a pena fazer acontecer do que esperar, sem ansiedade, sem frustrações. Os gregos já sabiam disso, vejam só, Pandora abriu uma caixa que continha TODOS  os males que existem e assombram a humanidade hoje, no fundo da caixa havia a Esperança, será que não é por que ela é o pior de todos os males?  Des-espere!

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Gaiarsa na Velvet Room: "Fundamental em psicoterapia seria perder o respeito!"

Nas minhas pesquisas sobre 'O Olhar" achei isso:

O Olhar do Big Brother

 E o olhar, o que tem a ver com isso? O Controle coletivo se faz primariamente à custa de oljares: de desperezo, horror, repugnância, condenação. Os olhares são os primeiros guardiões da moralidade coletiva, os mais imediatos e - estranhamente -  os mais ignorados. As pessoas pensam mil coisas, principalmente em torno da noção de "culpa" - portanto, do certo e do errado. Acreditam que são esses pensamentos - julgamentos preconceituosos - que mantêm a ordem estabelecida. Mas o que mantém a desordem estabelecida não são as palavras, mas as atitudes dos outros. Como sempre, o olhar é muito mais rápido - e fácil de ser negado! - do que as frases.

  As artes marciais - elas também - pretendem reavivar em nós esse animal inteiro (meditações dinâmicas).

 Dizem tantos: "Eu sei o que é bom pra mim, sei que não estou contente com a vida que levo, mas não tenho coragem para arriscar - para sair. Então aguento. Afinal, isso não é o normal?"

  "Aguente" é a mais comum de todas as lições morais para o casamento, a profissão, os velhos amigos.

  Só os que aguenta, têm compaixão pelos que aguentam e, juntos, mantêm o poderoso elo do sistema - o sutil e incompreensível pacto social dos oprimidos, o masoquismo da adaptação social, do "normal".
  "Sou normal" (mas você não imagina o que isso me custa...).

  Esse pacto invadiu, inclusive, a psicoterapia: no consenso popular, psicoterapia é mais ou menos chorar as mágoas, contar as desgraças, expor os medos, e não sair disso.  Também nas conversas comuns as desgraças são ouvidas mais atentamente do que os momentos de felicidade ou alegria...Essa atenção do terapeuta para o negativo é a melhor "técnica" imaginável para reforçar todas as coisas ruins. Se não der atenção a quem conta desgraças, você não tem coração. Ninguém parece perceber que, se todos dermos atenção à desgraça, só veremos desgraça no mundo. Se você chega rindo e brincando, as pessoas acham - ou mostram na cara - que esse riso é muito estranho e não fica bem, é coisa de criança. Rir muito é parecer bobo, ao passo que, se você se descabelar, reclamar do marido - que nunca está aí, que nunca faz "o que deve" - e do filho, que está se acabando em cocaína, todos se compadecem e até se dispõem a ajudar.

  Como sempre, os contrários estão presentes: em uma sociedade sádica - predadora e opressiva - o masoquismo é muito apreciado...

  Se numa terapia não forem quebradas a seriedade e a respeitabilidade das pessoas, nada se conseguirá. Ser sério e respeitável é o carimbo da adaptação social perfeita. "Sou infeliz, mas muito respeitável" é o que o homem sério diz. Por isso, seria muito bom se os terapeutas e as escolas de psicoterapia começassem a brincar um pouco mais, a ficar menos sérios e respeitáveis. É o que fazem muitas técnicas alternativas, bem próximas da dança, do contato, da celebração, da alegria.

  Fundamental em psicoterapia seria perder o respeito!


                                                                                                  Páginas 94 e 95 do Livro 'O Olhar" de J.A. Gairasa.